O papa divulgou ontem, 24, a Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais 2012.
Leia a íntegra da 46ª Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais:
No fundo, este fluxo incessante de perguntas manifesta a inquietação do ser humano, sempre
Devemos olhar com interesse para as várias formas de sítios, aplicações e redes sociais que
Com o título “Silêncio e palavra: caminho de evangelização”, Bento XVI explica que as relações
entre o silêncio e palavra são “dois momentos da comunicação que se devem equilibrar,
alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as
pessoas”.
Leia a íntegra da 46ª Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais:
Silêncio e palavra: caminho de evangelização
Amados irmãos e irmãs,
Ao aproximar-se o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012, desejo partilhar convosco
algumas reflexões sobre um aspecto do processo humano da comunicação que, apesar de ser
muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo.
Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem
equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda
entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação
deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de
indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e
significado.
O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo.
No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o
pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos
do outro, discernimos como exprimir-nos. Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se
exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada
confrontação, às nossas palavras e ideias. Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca
e torna-se possível uma relação humana mais plena. É no silêncio, por exemplo, que se
identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o
gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa. No silêncio,
falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma
particularmente intensa de expressão. Por isso, do silêncio, deriva uma comunicação ainda
mais exigente, que faz apelo à sensibilidade e àquela capacidade de escuta que
frequentemente revela a medida e a natureza dos laços. Quando as mensagens e a
informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante
daquilo que é inútil ou acessório. Uma reflexão profunda ajuda-nos a descobrir a relação
existente entre acontecimentos que, à primeira vista, pareciam não ter ligação entre si, a
avaliar e analisar as mensagens; e isto faz com que se possam compartilhar opiniões
ponderadas e pertinentes, gerando um conhecimento comum autêntico. Por isso é necessário
criar um ambiente propício, quase uma espécie de «ecossistema» capaz de equilibrar silêncio,
palavra, imagens e sons.
Grande parte da dinâmica atual da comunicação é feita por perguntas à procura de respostas.
Os motores de pesquisa e as redes sociais são o ponto de partida da comunicação para muitas
pessoas, que procuram conselhos, sugestões, informações, respostas. Nos nossos dias, a
Rede vai-se tornando cada vez mais o lugar das perguntas e das respostas; mais, o homem de
hoje vê-se, frequentemente, bombardeado por respostas a questões que nunca se pôs e a
necessidades que não sente. O silêncio é precioso para favorecer o necessário discernimento
entre os inúmeros estímulos e as muitas respostas que recebemos, justamente para identificar
e focalizar as perguntas verdadeiramente importantes. Entretanto, neste mundo complexo e
diversificado da comunicação, aflora a preocupação de muitos pelas questões últimas da
existência humana: Quem sou eu? Que posso saber? Que devo fazer? Que posso esperar? É
importante acolher as pessoas que se põem estas questões, criando a possibilidade de um
diálogo profundo, feito não só de palavra e confrontação, mas também de convite à reflexão e
ao silêncio, que às vezes pode ser mais eloquente do que uma resposta apressada, permitindo
a quem se interroga descer até ao mais fundo de si mesmo e abrir-se para aquele caminho de
resposta que Deus inscreveu no coração do homem.
No fundo, este fluxo incessante de perguntas manifesta a inquietação do ser humano, sempre
à procura de verdades, pequenas ou grandes, que dêem sentido e esperança à existência. O
homem não se pode contentar com uma simples e tolerante troca de cépticas opiniões e
experiências de vida: todos somos perscrutadores da verdade e compartilhamos este profundo
anseio, sobretudo neste nosso tempo em que, «quando as pessoas trocam informações, estão
já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais»
Devemos olhar com interesse para as várias formas de sítios, aplicações e redes sociais que
possam ajudar o homem atual não só a viver momentos de reflexão e de busca verdadeira,
mas também a encontrar espaços de silêncio, ocasiões de oração, meditação ou partilha da
Palavra de Deus. Na sua essencialidade, breves mensagens – muitas vezes limitadas a um só
versículo bíblico – podem exprimir pensamentos profundos, se cada um não descuidar o cultivo
da sua própria interioridade. Não há que surpreender-se se, nas diversas tradições religiosas, a
solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a
si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas. O Deus da revelação bíblica
fala também sem palavras: «Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu
silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Onipotente e Pai é etapa decisiva no
caminho terreno do Filho de Deus, Palavra Encarnada. (...) O silêncio de Deus prolonga as
suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio»
(Exort. ap. pós-sinodal Verbum Domini, 30 de Setembro de 2010, n. 21). No silêncio da Cruz,
fala a eloquência do amor de Deus vivido até ao dom supremo. Depois da morte de Cristo, a
terra permanece em silêncio e, no Sábado Santo – quando «o Rei dorme (…), e Deus
adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos» (cfr Ofício de Leitura, de
Sábado Santo) –, ressoa a voz de Deus cheia de amor pela humanidade.
Se Deus fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a
possibilidade de falar com Deus e de Deus. «Temos necessidade daquele silêncio que se torna
possibilidade de falar com Deus e de Deus. «Temos necessidade daquele silêncio que se torna
contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a
Palavra, a Palavra redentora» (Homilia durante a Concelebração Eucarística com os Membros
da Comissão Teológica Internacional, 6 de Outubro de 2006). Quando falamos da grandeza de
Deus, a nossa linguagem revela-se sempre inadequada e, deste modo, abre-se o espaço da
contemplação silenciosa. Desta contemplação nasce, em toda a sua força interior, a urgência
da missão, a necessidade imperiosa de «anunciar o que vimos e ouvimos», a fim de que todos
estejam em comunhão com Deus (cf. 1 Jo 1, 3). A contemplação silenciosa faz-nos mergulhar
na fonte do Amor, que nos guia ao encontro do nosso próximo, para sentirmos o seu
sofrimento e lhe oferecermos a luz de Cristo, a sua Mensagem de vida, o seu dom de amor
total que salva.
Depois, na contemplação silenciosa, surge ainda mais forte aquela Palavra eterna pela qual o
mundo foi feito, e identifica-se aquele desígnio de salvação que Deus realiza, por palavras e
gestos, em toda a história da humanidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Revelação
divina realiza-se por meio de «ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal modo
que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina
e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e
esclarecem o mistério nelas contido» (Const. dogm. Dei Verbum, 2). E tal desígnio de salvação
culmina na pessoa de Jesus de Nazaré, mediador e plenitude da toda a Revelação. Foi Ele que
nos deu a conhecer o verdadeiro Rosto de Deus Pai e, com a sua Cruz e Ressurreição, nos fez
passar da escravidão do pecado e da morte para a liberdade dos filhos de Deus. A questão
fundamental sobre o sentido do homem encontra a resposta capaz de pacificar a inquietação
do coração humano no Mistério de Cristo. É deste Mistério que nasce a missão da Igreja, e é
este Mistério que impele os cristãos a tornarem-se anunciadores de esperança e salvação,
testemunhas daquele amor que promove a dignidade do homem e constrói a justiça e a paz.
Palavra e silêncio. Educar-se em comunicação quer dizer aprender a escutar, a contemplar,
para além de falar; e isto é particularmente importante paras os agentes da evangelização:
para além de falar; e isto é particularmente importante paras os agentes da evangelização:
silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da
Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo. A Maria, cujo
silêncio «escuta e faz florescer a Palavra» (Oração pela Ágora dos Jovens Italianos em Loreto,
1-2 de Setembro de 2007), confio toda a obra de evangelização que a Igreja realiza através
dos meios de comunicação social.
Vaticano, 24 de Janeiro – Dia de São Francisco de Sales – de 2012.
BENEDICTUS PP XVI